4
Foice
Passaram-se 5 dias desde a chegada da hospede e ele já estava farto de seu nervosismo perante á ela. “Está resolvido, não tenho porquê de não falar com ela, pelo menos saber que ventos trouxeram-na para nossa cidadela”. A moça, chegando da saída ligeira, foi mais rápida. Olhou-o nos olhos, sorriu; nunca tivera sorrido tão envergonhado – percebeu o olhar do xucro sobre o dela –, corou-se. “Por favor, me diga quanto lhes devo, já estou de partida”. Partida?, talvez ali, por um instante, Martim com seus olhos arregalados de desgosto tenha sentido o que é desespero. Perdeu o controle das mãos, dos joelhos, dos olhos. Tudo tremia. Tudo doía. “E pra onde vai, senhorita?” desespero. “Campos Altos”. Sentiu as palavras da jovem mulher entrarem ásperas aos ouvidos. “São cento e doze reais” ;porque dissera isto, Martim? Assinalou assim, uma despedida previa; cruel. Matou ali o sentimento que nascera no peito – ou que nem nascera ainda. E foi-se a imagem de camponesa dando-lhe as costas finas, seus ombros brancos, e o planar do seu vestido.
Foi-se.
Janta
O Dia se mostrara fastio; o Céu altecava-se com o Mar. O Vento soprou como se fosse derrubar alguma casa. A divina Onda levantou á trapejar, assim como o Trovão. Os sustos pelos fortes estrondos engelhavam a pele do rosto de todos; mas logo o sol assomou. Só estavam jantando, e é em volta á mesa que as brigas são apenas passatempos. Deixam a comida saborosa os sons de gritos.
Onde mesmo encontrai-vos a todas as memórias esquecidas nos trens?
Antonio, alvo senhor de uma boca fina, rugas, olhos minúsculos – pequenos azuis de nevoa na bondosa face do senhor. Era ele quem limpava o seguimento de vagões vazios do trem que vinha da capital, este, feito de madeira parda que trouxe ás nossas pequenas vilas, o desenvolvimento das grandes cidades portuárias. Quantos livros, já desvendados até certo ponto por passageiros, aquele velho senhor folheara até a ultima pagina amarelada pela poeira de minas? Quanta lã já usada aquele europeu pousou sobre o peito? E todos os guarda-chuvas esquecidos? , e quantos são; mas, senhor Antonio não tivera tempo para usá-los um por um. Foi-se em dia de chuva. Deixou tudo o que encontrara para seu filho. Foi-se, sorrindo, em dia de chuva.
Camilo, viúvo de quarenta e dois anos, bem vestido com lã, em seu rosto queimado de sol encontram-se olhos azuis – olhos de nevoa, como os do pai. Tinha uma pequena loja. Pôs-se a levar a vida a vender guarda-chuvas e ler antigos livros que encontrara na estante de casa. Homem Feliz.
Adotado pelo nome que lhe chamam.
3
Arrasta os erres por entre o alvo dos dentes. Realmente se sente envergonhado com a identidade que essa sonoridade lhe dá? Seria bom que soubesse que a hospede de cabelos negros, vestido leve e corpo camponês gosta de ouvir sotaques. Preferiu a sonoridade de vida no mato que aos caóticos estrídulos do concreto onde se encontrara há tempos atrás.
Mesmo depois da maior idade morou com a sua mãe, mas eram duas deusas de gênios fortes; a paz não durava por muito tempo por entre as teias agarradas ás paredes desalinhadas da casa. Este foi o motivo da viajem da moça? Ouvira a alguns dias que na verdade, a moça só procurava o casarão de alguns parentes distantes aonde passara parte da infância. Ela estava hospedada, mas só de passagem.
Escrevedor; seja breve.
Alias, chamavam-no de Martim.
2. Campo. Capim. Cidreira.
O vestido claro, leve, o corpo, camponês em sua essência. Tudo nela atraia-lhe; tudo apaixonava-o. Mais uma hospede? Porque não a interroga com seu lápis na boca? Com ela vai ser diferente. Em seu caderninho, já tens as mais diversas personagens, vindas de todos os ventos, cheiros, fomes. Mas depois desses 14 anos de catalogação de pessoas, seus olhos não vêm os dela com o mesmo jeito.
Decidiu caminhar, procurar o que fazer.
Achou. Campo de capim; campo de cidreira. Céu, balanço de arvore, grama, toalha e três livros em uma tarde. Mas todas aquelas palavras pintadas nas folhas amarelas entravam na cabeça embaralhadas, confusas. A imagem da camponesa estava desmontando e embaralhando-as, colocando-as ao seu gosto, onde bem entender. Que dia mórbido; as chamas dos seus cabelos já não se misturavam com as fagulhas dos olhos, esses, que nem mais piscavam, eram verdes, de uma flora suja de negro, bordados com mel. Pequenos arbustos floridos dentro de seus olhos.
Bienvenue convida-o a entrar. Admitir sua surreal afeição pela hospede, e entrar.
1
Com pedaços de mim, faz-se vida.
Com ouro, nada.
Quanto tempo uma nuvem demora pra nascer? Perguntou só. Não que estivesse realmente só, ali havia também uma arvore; escura, vivida. Sua pele, cheia de escaras deixadas pela vida, galhos turvos, abrigo de batedores de asas, suas folhas dançavam, caiam. Estavam á trocar experiências, não que aquele simples homem tivesse muito o que ensinar a uma anciã, uma sabia, mas ela era uma boa ouvinte, adorava ouvir estórias.
Ele passara a vida em uma pequena pousada; “Bienvenue” era o nome dela, se não me engano. A família era dona. Era uma criança pobre, não tinha muitos brinquedos materiais. Trabalhava na recepção desde os 7 anos por conhecer pessoas, passava o dia conversando com os hóspedes que chegavam. Tinha em mãos sempre um bloco de papel, um lápis meio comido, se sentia apto a tornar todos que conhecera em seus, seus personagens, suas brincadeiras de criança. Escrevia algumas palavras, e fazia um desenho de seu entrevistado, tomava-o pra si. Fazia-se dele;
Falácia
Já se fazia hora de dormir, mas, insistira na janela, uma pequena posta com os cotovelos para fora. Segurava um ursinho, sujo, surrado. A mocinha estava á observar o céu, um volutabro de estrelas e escuridão; não fazia idéia de quem poderia ter feito tamanha maldade. Seu olhar era fixo, nunca tinha sentido aquilo; quisera ela poder ajudar, mas isso estava longe demais das pontas dos seus dedos de unhas comidas pela nervosa criança. Foi moderando os passos até a porta do quarto dos pais, ainda não tocada por tipo algum de tinta, grande, entreaberta. Com o ursinho a altura dos joelhos, pés descalços. “Mamãe. Acorda mamãe. Vem ver. Alguém Fez um monte de furos no céu!”
Cipó-flor
Gastou anos erguendo-se por entre escaras nas paredes, estas que se encontravam ali desde sempre, como se o casarão já fora marcado de tempo antes mesmo de ser levantado. Aquela nuvem de pétalas que o vento não leva mais estava ali apenas por acaso, se esgueirava pelas arestas, entrava pelas janelas, portas, e coloria com suas flores todo o quintal. Talvez tenha sido esse o motivo de tantas cores na infância daquela mocinha magrela, canelas como agulhas, joelhos que contavam historias de brincadeiras aos montes, mãos sujas de terra, sorriso falho e as sardas. Aquelas sardas, elas prendiam os olhos e a fala. Sorria de mostrar as gengivas, todo dia. Não tivera tempo, na sua infância irrequieta, de ficar ofusca, cabisbaixa. Estava sempre a correr, com uma flor em uma mão, e n’outra, ora ou outra, se via a palma clara de um negrinho; não se sabe o nome dele, ou da onde viera, mas ele estava lá. Eles estavam. Ambos de pés no chão. Passavam horas á pular perto de um rio atrás da vila, lavavam o suor do rosto na água, corrente e gélida, e como de costume, o garoto começava a guerra, uma guerra de gotas d’água. Onde já se vira; molhar assim uma flor como aquela mocinha magrela. Talvez tenha sido esse o motivo de tantas cores na infância daquela mocinha magrela. E passariam assim os dias. Sorrindo de mostrar a gengiva, todo dia.
Mirífico
Olha de frente pro mundo e de soslaio fita a janela, apreensiva, esperançosa. Espera que o pássaro que vira dias atrás ainda volte, amedrontado, brando e mirrado. Eles sabem que vão se reencontrar, descrentes no destino, mas existe ali um acaso já certo. Enquanto suas pétalas caem, perdem cor para o solo em que se encontram, com o correr da semana. Ela ensaia o encontro até descobrir as palavras certas á dirigir ao pássaro, livre, do outro lado do vidro; “Ora, surpresa boa essa, pássaro. Que bons ventos o trazem?” Assim vai ser. Disfarça a felicidade, pois ela sonhou com aquelas asas durante dias, e não quer assustar o pobre batedor de asas. Que dia mesmo ele vem? Ah, Flor. As pétalas estão acabando, melhor que ele não se demore.